Mais um ano escolar se
inicia, e eu como sempre, serei a mais isolada da turma. Para minha sorte, esse
é o ultimo ano desse martírio que é o Ensino Médio. Passei os dois primeiros
anos sendo zombada pela turma por nunca ter tido um namorado, e o pior é que
isso se espalhou por outras turmas e por conta disso acabei me tornando uma
garota fechada. Tenho medo das pessoas. Até que, durante a tradicional
apresentação, percebo que há gente nova. E após isso, a garota que entrou na
turma, ao ver minha timidez excessiva, resolve se aproximar. Ela é muito
atraente, tem cabelos loiros, olhos azuis, é bem branca, traços delicados e
certamente deve ter um monte de gente atrás dela, ou pior, deve ser até
comprometida. Nunca tive um relacionamento e desejo muito isso, quem sabe assim
as piadas a meu respeito param. Mesmo sabendo que poderia ser ainda pior por
ser um relacionamento homo. Mas no terceiro ano ninguém mais é criança e pelas
coisas que ouvi durante os outros anos, não ficam fazendo piadinhas para
humilhar. Assim espero que seja...
A garota senta à minha
frente, e por estarmos em carteiras juntas à parede, ela senta de lado para
poder conversar.
— Oi, como se chama? –
pergunta ela
— Nadia, respondo com certa
timidez.
— Heey, não precisa ter medo
de mim, não sou badernista. Prazer, sou Ana Luisa, ela responde.
— Você é mesmo daqui de São
José dos Campos?, pergunto eu
— Não, não... Sou de
Sorocaba, vim pra cá esse ano, e você?
— Sou de Bucareste, Romênia.
Vim para o Brasil aos quatro anos de idade.
— Nossa, uma romena! Que
legal, juro que você parece brasileira, não tem sotaque.
— Obrigada, respondo.
Não sei o que aconteceu, mas
essa garota, além de ser muito bonita, parece ser bem tranqüila. Gostei dela. A
primeira semana de aula se passa e percebendo que enfim poderia ter uma
amizade, fiquei o tempo todo junto de Ana Luisa. Íamos embora juntas,
aproveitamos o tempo bom e ficávamos conversando na sorveteria da esquina,
enquanto nos refrescávamos com sorvete. Porém na sexta feira ela não pôde, pois
teve que sair mais cedo. Quando eu estava saindo da sala, um grupinho de outra
turma me cerca e diz:
— Hey, sua gringa esquisitona!
Percebemos que você passou o tempo todo junto da nova aluna, e cá entre nós,
ela não é de se jogar fora... Vamos fazer um acordo?
— Qual?, pergunto com
receio.
— Se você ficar com a
gostosinha, a gente pára de zombar de você e pediremos pras outras turmas
pararem também. Você pode não saber, mas eles nos respeitam e se a gente pede,
eles atendem. Mas com uma condição: já que você e ela vão sempre à sorveteria
da esquina, vocês têm que dar um beijo ali, para que possamos ver e ter certeza
do ocorrido. Combinado?
— Se é essa a condição...
combinado!
Ninguém tem muita certeza de
que gosto de mulheres, mas todos desconfiam, afinal, nunca fui vista com um
garoto no colégio ou aqui pelo bairro, e todo o pessoal do bairro estuda aqui,
então, se eu ficasse com alguém, todos saberiam... sei que é bastante arriscado
isso que aceitei, principalmente pelo fato da Ana Luisa ser muito bonita e
certamente ter namorado. Mas vou tentar a sorte, “vai que” né...

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